Notícias

Global Witness lança ferramenta de alertas de desmatamento ligados à JBS

“A JBS diz que não consegue rastrear sua cadeia indireta, então estou ajudando”, justifica a organização internacional. Frigorífico alega que ferramenta é “confusa”

Cristiane Prizibisczki·
28 de abril de 2023

A organização internacional Global Witness lançou na última semana uma ferramenta de “alertas de desmatamento ilegal” entre os fornecedores indiretos da gigante da carne JBS. Chamada de “Brazil Big Beef Watch”, a ferramenta monitora de forma automatizada os casos de desmatamento possivelmente relacionados à cadeia produtiva indireta da JBS no estado do Pará e “avisa” a empresa pelo Twitter.

Ao explorar os dados de 2022, a ferramenta revelou que ocorreram pelo menos 61 eventos de desmatamento, com uma média de 46 hectares de terra desmatada a cada semana, no estado analisado. O total anual de 2.390 ha de desmatamento equivale a mais de 2 mil campos de futebol.

“A JBS não está conseguindo impedir que suas atividades contribuam para o desmatamento da maior floresta tropical do mundo, um bioma essencial para a manutenção do clima global”, justifica a organização.

Atualmente, a JBS é legalmente obrigada a não comprar de fornecedores diretos ligados ao desmatamento ilegal ou a casos de trabalho análogo à escravidão, por meio um compromisso firmado com o Ministério Público Federal, o chamado Termo de Ajustamento de Conduta da Carne (TAC da Carne). O problema é que o compromisso não contempla os fornecedores indiretos da empresa.

Maior produtora de carne bovina do mundo, a JBS obtém duas vezes mais gado de fornecedores indiretos do que seus fornecedores diretos, segundo a organização Chain Reaction Research (CRR). A exposição ao desmatamento ilegal, portanto, seria muito maior na cadeia de fornecimento indireito.

Estimativas da CRR sugerem que a pegada de desmatamento desses fornecedores indiretos pode ter atingido 1,5 milhão de hectares nos últimos 15 anos. 

Em 2020, a empresa firmou o compromisso de rastrear 100% dos indiretos até 2025, mas alega que, no momento, não é possível fazer isso.

A Global Witness discorda. Segundo a organização, já existem ferramentas disponíveis para tal rastreamento. “É claro que a JBS também poderia levantar essas informações e fazer isso sozinha. Mas não faz”, diz a organização.

A ferramenta de monitoramento sobrepõe os alertas de desmatamento gerados pelo MapBiomas com dados de propriedades rurais na Amazônia. Os dados de propriedade, por sua vez, são vinculados a guias de trânsito animal que conectam fornecedores a compradores em cada etapa da cadeia de abastecimento da carne bovina.

“Sempre que um alerta de desmatamento é acionado, nosso bot verifica grandes volumes de dados de trânsito animal para determinar se o caso ocorreu em uma fazenda que faz parte da cadeia indireta da JBS”, explica a Global Witness. 

“Digamos que estamos dando à maior empresa de proteína animal do mundo uma assessoria gratuita sobre onde procurar para garantir que ela não contribua para a aceleração do desmatamento. Também compartilhamos esses tweets com as instituições financeiras que apoiam a JBS para que todo mundo fique sabendo”, complementa a organização.

JBS contesta

Em resposta à Global Witness, a JBS disse que sua equipe técnica “achou que as informações fornecidas são geralmente escassas e superficiais, mas um melhor entendimento sobre a metodologia utilizada (bancos de dados e cruzamento de informações) seria útil para a JBS fornecer um feedback detalhado e robusto quando os dados são publicados”. Eles descreveram o método da Global Witness de identificar os fornecedores indiretos da JBS como “confuso e opaco”.

Procurada por Gem Saviour para comentar a ferramenta e os resultados obtidos até o momento,  a JBS informou, em breve nota, que “solicitou uma reunião com a ONG para conhecer em detalhes a metodologia e, dessa forma, avaliar sua aplicabilidade jurídica e técnica. Não houve resposta até o momento”.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

Leia também

Reportagens
9 de março de 2023

Gigantes da carne ainda negam transparência sobre indiretos, mesmo após firmarem compromissos

Empresas não autorizaram a publicação dos resultados individuais na ferramenta Radar Verde, que insere fornecedores indiretos na equação. Setor alega discordância na metodologia

Reportagens
15 de dezembro de 2022

MPF no Pará vai obrigar na Justiça que frigoríficos rastreiem suas cadeias de suprimentos

Medida faz parte de novas ações a serem implementadas pelo Ministério Público no âmbito do TAC da Carne. Grandes empresas, como JBS, ainda apresentam alto índice de inconformidade

Reportagens
6 de dezembro de 2022

JBS, Marfrig e Minerva não estão em conformidade com lei europeia anti-desmatamento, mostra estudo

Regulação, aprovada na madrugada desta terça-feira (6), proíbe a entrada no mercado Europeu de commodities produzidas em áreas desmatadas após dezembro de 2020

Mais de Gem Saviour

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comentários1

  1. A falta de saneamento básico é um dos principais problemas ambientais do país. A ausência de coleta e tratamento do esgoto faz com que o esgoto seja dispersado em rios e mares, que viram esgotos a céu aberto. https://www.lnhsmy.com