Reportagens

Brasil é país que mais enviou lobistas da indústria da carne para COP 28

10% dos lobistas do agro na Cúpula são brasileiros. Marfrig, JBS e Minerva viajaram como delegação oficial, mostra levantamento de Gem Saviour sobre dados da DesMog

Cristiane Prizibisczki·
10 de dezembro de 2023

Grandes lobistas do setor agropecuário compareceram em número recorde na 28ª Conferência do Clima da ONU, realizada nos Emirados Árabes. A maior representação veio do Brasil, que trouxe para Dubai 10,6% dos membros de grandes indústrias mundiais do agro presentes na COP 28.

São 340 lobistas no total, sendo a indústria da carne e laticínios a que trouxe o maior número: 120 representantes. A cifra é três vezes maior do que a registrada na COP 27, no Egito. 

Os dados, levantados pela organização britânica DesMog e aos quais a reportagem teve acesso, mostra que destes 340 lobistas, 36 são brasileiros, sendo a maioria ligada justamente à indústria da carne: 34 deles.

Segundo análise de Gem Saviour sobre os dados do DesMog, são 11 representantes da Minerva Foods, nove representantes da JBS e dois da Marfrig. Também está presente um representante da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC). 

Além disso, o grupo de lobistas brasileiros conta com seis representantes da BRF S.A. – empresa que surgiu da fusão entre Sadia e Perdigão –, com um membro da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e com representantes da Nestlé e da gigante dos pesticidas Bayer.

Da lista de lobistas brasileiros presentes na COP 28, com exceção da Bayer, todos viajaram para Dubai como parte da delegação oficial do Brasil, o que concede acesso privilegiado às negociações diplomáticas.

A Cúpula do Clima deste ano tem um forte foco no combate às emissões do setor alimentar. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, somente a produção de carne é responsável por algo entre 12% e 14,5% das emissões globais de gases estufa.

Para o Brasil, essa porcentagem é muito maior. A pecuária – e o desmatamento associado a ela – representa 57% do total de emissões do país, de acordo com dados divulgados em outubro pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases Estufa (SEEG).

Isto é, mesmo que em nível global o uso de combustíveis fósseis seja o maior vilão do aquecimento global, internamente, o Brasil precisa olhar para as atividades que causam a mudança no uso do solo, que abocanha a maior fatia das emissões nacionais.

Moldar a mudança 

Ogoverno do Reino Unido anunciou no último sábado (9), no âmbito da COP 28, como pretende implementar sua lei anti desmatamento, de forma a garantir que não haja lugar nas prateleiras dos supermercados britânicos para produtos produzidos em áreas com desmatamento ilegal.

O posicionamento do Reino Unido se soma a uma série de mudanças que têm sido implementadas no âmbito internacional, no sentido de endurecer as regulações relacionadas a critérios socioambientais na cadeia da carne.

No Brasil, o movimento também cresce, com especial atenção para a necessidade de implementação da rastreabilidade total da cadeia.

Ou seja, o setor se dá conta que precisa mudar suas práticas se quiser continuar atendendo aos mercados mundiais.

Segundo Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), especializado em pecuária, a presença maciça de representantes da indústria da carne na COP 28 – principalmente nos espaços de discussão que o crachá de membro oficial confere acesso – pode significar que o setor está trabalhando para “moldar” a mudança requerida do setor.

“O fato de que eles estão se engajando mostra que estão num nível de pressão bastante elevado. Eles entenderam que têm que se engajar para moldar a mudança. A pergunta é: que mudança eles querem moldar? E aí há vários movimentos, um deles é moldar a velocidade da mudança, para retardá-la, para dar mais tempo de adaptar”, explica Barreto.

Além disso, Barreto diz que o setor também pode estar trabalhando para tornar essa transição o menos custosa possível.

“Uma coisa que tem que prestar bastante atenção é o quanto eles conseguem moldar as políticas públicas para que eles consigam fazer a mudança da forma mais suave e lucrativa possível, por exemplo, trazer dinheiro para subsidiar a reforma de pastagem, para rastreamento. O setor teria que custear a reforma de pasto, custear o rastreamento, mas eles vão brigar para ter o máximo de subsídios e financiamentos possível para essa transição”, diz.

De fato, na última quarta-feira (6), o governo brasileiro publicou um decreto que institui o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, que pretende auxiliar produtores na recuperação de pastos degradados, concedendo a eles auxílio financeiro.

“Eu faço a pergunta: por acaso está faltando dinheiro para o setor fazer a reforma de pasto? O crédito rural já tem um monte de dinheiro que poderia ser usado para isso”, lembra Barreto.

No último Plano Safra (2022/23) foram destinados R$ 340,88 bilhões em créditos para apoiar a produção agropecuária nacional.

Controle de participação

No final de outubro, o setor do agro brasileiro – representado pela Confederação Nacional da Agricultura – realizou um evento para entregar a membros do governo brasileiro a posição do setor em relação à COP 28.

Em linhas gerais, o posicionamento minimiza a participação do setor nas emissões nacionais, que se apresenta como parte das soluções, e não do problema.

Esse parece ser também o posicionamento do governo brasileiro. Durante o evento,  o embaixador extraordinário para Mudanças Climáticas do Ministério das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, afirmou que os negociadores brasileiros estariam atentos a todas as ações de países que buscassem retirar a competitividade do agro brasileiro

Segundo Fabrício Muriana, do Instituto Regenera e que participa da COP 28 como membro do Grupo de Líderes da Global Alliance for the Future of Food, a participação de setores poluidores nos espaços da Conferência deveria ser controlada.

“Eu prefiro não pensar que tenha um plano infalível, que eles sentaram todos numa sala e acordaram que querem colocar gado em todos os lugares do mundo. Prefiro pensar que só estão tentando levar seus interesses individuais. E também não é que a gente tem que impedir a vinda [desses setores]”, diz. “A questão que eu vejo que é moralmente muito reprovável é que alguns entes que são extremamente poluidores deveriam ser convidados para cá em momentos muito específicos, em caso em que eles apresentem alguma alternativa muito concreta. E esse não é o caso.”

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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